Pages

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Tomara

Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...

Vinícius de Moraes

Escadaria para o paraíso

Há uma senhora que acredita que tudo o que brilha é ouro, e ela está comprando uma escadaria para o paraíso. E quando chega lá ela percebe, se as lojas estiverem todas fechadas com uma palavra ela consegue o que veio buscar. E ela está comprando uma escadaria para o paraíso

Há um cartaz na parede mas ela quer ter certeza, porque você sabe que às vezes as palavras têm duplo sentido. Em uma árvore à beira do riacho há um rouxinol que canta, as vezes todos os nossos pensamentos são inquietantes

Isto me faz pensar. Isto me faz pensar

Há algo que sinto quando olho para o oeste, e meu espírito chora para partir. Em meus pensamentos tenho visto anéis de fumaça atravessando as árvores, e as vozes daqueles que ficam parados olhando

E um sussurro avisa que cedo, se todos entoarmos a canção, então o flautista nos levará à razão, e um novo dia irá nascer para aqueles que suportarem, e a floresta irá ecoar gargalhadas.

Se há um alvoroço em sua horta não fique assustada, é apenas limpeza de primavera da rainha de maio

Sim, há dois caminhos que você pode seguir, mas na longa estrada há sempre tempo de mudar o caminho que você segue. E isso me faz pensar

Sua cabeça lateja e não vai parar, caso você não saiba. O flautista te chama para se juntar a ele; Querida senhora, pode ouvir o vento soprar? E você sabe, sua escadaria repousa no vento sussurrante.

E enquanto corremos soltos pela estrada, nossas sombras mais altas que nossas almas, lá caminha uma senhora que todos conhecemos, que brilha luz branca e quer mostrar como tudo ainda vira ouro. E se você ouvir com atenção ao menos a canção irá chegar a você, quando todos são um e um é o todo.

Ser uma rocha e não rolar,

E ela está comprando uma escadaria para o paraíso...

Led Zeppelin

O Elefante

Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.

Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis o meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê em bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.

É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.

Carlos Drummond de Andrade
Esta vida, que há de desaparecer de uma vez por todas para nunca mais voltar, é semelhante a uma sombra, é desprovida de peso, que, de hoje em diante e para todo sempre, se encontra morta e que, por muito atroz, por muito bela, por muito esplêndida que seja, essa beleza, ese horror, esse esplendor nao têm qualquer sentido.

- A insustentável leveza do ser.